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Marcos 16:15
Criacionismo e esperança

Postado em 31/Maio de 2018
Quando pensa, o homem pensa guiado por algum tipo de estrutura conceitual complexa e abrangente. Por trás de suas ideias existe um pano de fundo, certo ponto de partida na forma de dogma, nem sempre fácil de explicar ou definir, mas fortemente poderoso, que lhe serve de orientação existencial. Por intermédio dessa lente, o homem enxerga a si mesmo, a realidade e o mundo, interpretando-se e interpretando o exterior mediante o instrumento da linguagem. Em outras palavras, “todo pensamento teórico tem como ponto de partida pressupostos fundacionais indemonstráveis, designados como axiomas, modelos, paradigmas, matrizes discursivas, epistemas, mundividências (ou cosmovisões), crenças, ideologias, etc.”. Evocando Blaise Pascal, no centro e no recôndito do pensamento humano pulsa um coração que “tem razões que a própria razão desconhece”.
Na esfera filosófico-científica, dois “corações” batem com vigor, cada um impactando o mundo de maneira diferente. Um deles pulsa concedendo vida a teses que concebem o Universo e a humanidade como resultados do mero acaso, acidente ou sorte, excluindo o propósito cósmico e pessoal do cenário da vida: este é o evolucionismo na sua forma mais radical. Outro “coração”, o criacionismo, insiste em bater com base no fato da Criação especial, imprimindo significado transcendente a tudo que existe e não excetuando de suas considerações o problema do mal e do sofrimento. Se ambos podem ser classificados como modelos ou estruturas conceituais, qual deles bate no ritmo certo da realidade e possui maior poder explanatório perante os fatos da história, as leis da natureza e as anomalias e absurdidades do mundo? Outra pergunta de grande importância: Como tais modelos podem estar relacionados com o anseio por esperança que o ser humano traz no íntimo?
Para Nancy Pearcey, estudiosa das cosmovisões, “todo sistema de pensamento inicia-se em algum princípio último. Se não começa com Deus, começa com uma dimensão da criação – o material, o espiritual, o biológico, o empírico ou o que quer que seja. Algum aspecto da realidade criada será ‘absolutizado’ ou proposto como base e fonte de tudo o mais – a causa não causada, o existente por si mesmo”. Dessa forma, conforme Langdon Gilkey, “quer o deseje, quer não, o homem como criatura livre deve moldar sua vida de acordo com algum fim último, deve centrar sua vida em alguma realidade última escolhida e deve submeter sua segurança a algum poder de confiança. O homem é, portanto, essencialmente, não acidentalmente, religioso, pois sua estrutura básica, como dependente e, todavia, livre, inevitavelmente enraíza sua vida em algo último”.
Enquanto na mentalidade cientificista as leis naturais são consideradas o fato bruto e último do Universo - concorrentes de Deus -, o pensamento criacionista aponta em direção à Causa pessoal não causada - o Criador eterno. Aqui há enorme diferença de concepções, pois, metafisicamente, o criacionismo sustenta-se sobre uma base supranatural não reducionista, conferindo à existência o sensus divinitatis. Entretanto, em sua visão limitada e encantados pelas leis da natureza, os cientistas materialistas acham inadmissível qualquer Presença pessoal por trás do cosmos. Por quê? Porque as leis naturais realmente nos causam espanto, a ponto de querermos torná-las os “deuses da matéria”. Aqueles que têm o privilégio de estudá-las a fundo ficam assombrados com a linguagem matemática dessas leis. Quem sabe o maravilhamento para com o Universo tenha sido o elemento responsável para conduzir alguns homens ao processo de “divinização” da natureza. Assim, a postura de muitos cientistas indica que, sutilmente, a natureza é “deificada”, mas de maneira bem diversa daquela do passado mitológico. O endeusamento atual é consequência do deslumbramento humano em face das leis físicas, químicas e biológicas, “adoradas” pela maioria daqueles que investigam os misteriosos e grandes segredos da vida. Nesse processo de investigação, infelizmente, o Legislador vem sendo ostracizado e desconsiderado por uns, e até zombado pelos mais acérrimos inimigos da ideia de um Deus pessoal – indivíduos competentes em sondar e descobrir coisas incríveis que olhos não treinados não são capazes de enxergar. Admiram-se diante da maravilha, mas olvidam o Maravilhoso; ou, como expressou A. W. Tozer, “o cientista moderno perdeu a Deus no meio das maravilhas do mundo de Deus”.
Porém, é difícil não perceber “o rumor de algo invisível por trás da Criação (...). Cada descoberta traz consigo novas perguntas que têm multiplicado os mistérios que nos cercam. O que está cada vez mais claro, porém, é que o movimento da descrição para a explanação está além da esfera da pesquisa científica unicamente. Do infinitesimal para o infinito, o design e a estrutura da natureza apontam inexoravelmente para as maravilhas de coisas ainda não vistas. A ciência continua a revelar a infraestrutura oculta da natureza. E com cada nova descoberta, surgem mais evidências de um tecido supranatural, que não somente abastece e anima o cosmo, mas também detém as derradeiras respostas acerca do Universo e da realidade propriamente dita. (...) Há alguma coisa não totalmente natural acerca da ‘natureza’”.
“No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1:1). O coração do criacionismo bate nessa esperança fundamental. Crendo-se nas linhas iniciais de Gênesis, renuncia-se a pseudoconcepções que só deixam o homem ainda mais perdido e incompleto, entre as quais: “O ateísmo, inequívoca negação da existência de Deus, é falso porque Deus é. O materialismo, que pretende explicar todas as experiências da vida em termos das leis físicas, e nega a necessidade de crer em Deus como a Causa eficiente de todas as coisas, é falso porque aqui se vê que a matéria um dia começou a existir. O dualismo, ensinando que há dois princípios eternos, até mesmo dois seres divinos – um mau e outro bom – em oposição mútua, é falso porque no princípio havia Deus somente. O panteísmo, que afirma que tudo é Deus e Deus é tudo, identificando Deus e natureza, insistindo na eternidade da matéria, e asseverando que a matéria pode de si própria originar vida, é falso porque Deus estava fora de Sua criação. O politeísmo, que é culto a muitos deuses, é falso porque só havia um Deus criando. O evolucionismo, definido como a teoria de que, mediante processos naturais e por transformação gradual, todas as coisas derivam de materiais preexistentes, é falso porque céus e terra foram criados.”
Encontrar a verdade nos discursos mais extraordinários constitui uma possibilidade aberta ao teste da investigação histórica e científica. Afirmações suprarracionais que parecem não fazer sentido por causa de leituras enviesadas e interpretações enganosas, conhecimento fragmentário, pressupostos filosóficos, limitações do pensamento ou preconceito, podem ser encaradas como antigas verdades que ainda encontram correspondência na mente científica. Na procura por nossas origens, pela "ancestralidade comum universal", teremos de adotar algum discurso extraordinário, admitir certa metanarrativa, crendo e vivendo pelas evidências buscadas em todos os campos do conhecimento. É assim que formamos nossa visão de mundo, a qual precisa ser testada no laboratório da experiência humana.
Talvez para aqueles que analisam superficialmente as teses criacionistas, aos seus olhos estas não passem de obscurantismo alimentado pela superstição e arrogante pretensão dogmática. Nada mais equivocado! Visto mais de perto sem o olhar do preconceito e da ignorância, o criacionismo não só permite decifrações mais consistentes diante do enigma de “por que existe algo ao invés de nada?”, mas também incute fôlego cognitivo ao ser humano desejante de respostas que o salvem do seu “peso existencial”. Dessa forma, se a crença na evolução mecanicista causa incertezas e o desencantamento do mundo, aceitar os fundamentos essenciais do criacionismo significa receber um impacto de esperança: esperança que se traduz no passado originado pelo fiat divino, na realidade presente guiada pela Providência e no futuro em que a criação será renovada e revestida de glória inimaginável. Assim, o criacionista sente-se amparado pela benevolente Consciência supervisionadora que se encontra além da natureza e de suas leis. Para ele, explicar regularidades e fenômenos não é suficiente; constitui apenas uma parte do processo de investigação que começa com o mundo material, mas prossegue em trajetória até Deus. Nesse percurso, o visível e o invisível se entrelaçam, e o mundo da ciência encontra-se com o universo da fé. Logo, o criacionismo é uma cosmovisão permeada de esperança, porquanto, através de suas lentes, toda a realidade é observada e estudada sob o enfoque da criação e da redenção.
Como bem disse João Calvino: “O que seria de nós se não nos apoiássemos na esperança, e se nossos sentidos não se dirigissem para fora deste mundo, no caminho iluminado pela Palavra e pelo Espírito de Deus em meio a essas trevas?” O caráter extraordinário do criacionismo constitui um tremendo desafio à mente que procura por luz e sentido, e não somente por ciência e explicações. De mãos dadas com a fé, o criacionismo abre uma janela de perspectivas capaz de direcionar nossos pensamentos e afetos para além do mundo contingente; ele é uma ponte de esperança que une o “como” ao “porquê”.

(Frank de Souza Mangabeira, membro da Igreja Adventista do Bairro Siqueira Campos, Aracaju, SE; servidor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe)
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